quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Na terra dos três macacos


Por Dimitri Ganzelevitch
À sombra da elegante, mas abandonada Cruz do Pascoal, antiga coluna votiva revestida de azulejos, moram poetas, jornalistas, professores universitários, fotógrafos, músicos, figurinistas, artistas visuais, arquitetos, advogados e cineastas, todos formadores de opinião. Deve ser a maior densidade cultural por metro quadrado da capital. Gilberto Gil aqui se criou, Dorival Caymmi morou por estas bandas. O número de pousadas de bom nível, desde o Convento do Carmo até a Pousada do Baluarte, também é, sem dúvida possível, a maior concentração de Salvador. Hospedam a nata do turismo, aqueles viajantes, curiosos e discretos, que vêm mergulhar fundo na verdadeira Bahia, pisando em ovos, longe de qualquer atitude predadora. Levarão para bem longe as impressões da descoberta de nossa gente e de seus costumes.  Nem por isso as autoridades se preocupam com o bairro. Parecem nem saber que o bairro existe.
Por que tanto desleixo com esta parte do centro histórico da capital baiana, também tombada pela Unesco? Afinal, é patrimônio por osmose, por condescendente favor ou por méritos próprios? Existe uma evidente má vontade em se resolver os problemas deste bairro, tanto a nível municipal como a nível estadual, já que o Ipac nem se digna em responder aos abaixo-assinados ou concretizar a promessa de restaurar a dita Cruz do Pascoal e, lá encima, a nível federal, o Iphan, repetidamente solicitado, nunca manda fiscalização alguma quando irregularidades são denunciadas. Todos surdos, cegos e mudos, mas sem a graça dos paradigmáticos símios.
A prefeitura mantém um permanente estado de sujeira que passou a ser marca registrada da tal baianidade – escandaloso, o contrato de vinte anos com a Vega! - só se lembrando do bairro em hora de cobrar impostos e se fazendo de distraída com os pedidos de recuperação da ladeira do Pilar que une a cidade alta ao Comércio. Nenhum carro pode se aventurar na buraqueira e assim vai tocando a festa permanente da marginalidade. A omissão deliberada dos poderes públicos favorece o aumento do narcotráfico na invasão vizinha à Igreja de Santa Luzia.
O policiamento é tão irregular quanto as pedras da rua. O plano inclinado que leva ao Comércio pára "por motivo de manutenção" por semanas seguidas "porque as peças são importadas". Falta infra-estrutura básica obrigatória em qualquer bairro. Farmácia, padaria, mini-mercados, dentista, clinica geral, creches, papelaria, foto-copiadora, loja de material fotográfico, livraria. Os transportes públicos são precários, param onde e quando lhes dá a telha e usam rotas que não correspondem às necessidades dos moradores.
Agora acabou de cair das nuvens uma menina mimada que bate o pé para transformar a rua direita num Daslú de província. Quando passar a onda, vai ser uma falência só, tipo Aeroclube ou, como aconteceu com o Pelourinho, que nunca mais se recuperou da leviandade política e da falta de conceito. E ainda tem desmiolado por aí que bate palma e quer mais!
Depois do fracasso do Pelourinho, aguardamos, resignados, a desertificação do bairro do Santo Antônio. Era só o que faltava!...

Salvador, 30 de novembro de 2009

2 comentários:

  1. Acho interessante toda essa discussão sobre o Santo Antonio que vem ocorrendo na net e nas ruas. Infelizmente o tom pessimista e até radical de Dimitri faz com que seus clamores se percam no deserto. O formato do discurso, a má escolha das palavras (ex.: desmiolado & terra de macacos), a falta de argumento sólido e um certo "ciume" que fica transparecendo em seus textos, os transformam em uma kalashnikov na mãos de um menino vesgo: Tiro pra tudo quanto é lado, sem nunca acertar em alvo algum, e ainda pondo em risco aqueles que se arriscam a ficar perto dele.
    Por outro lado, o instituto Iris, da chamada "menina mimada", reuniu profissionais e promoveu hoje (3/12) na FIEB debate ABERTO sobre desenvolvimento urbano e sustentabilidade (c/ enfase no centro histórico). Ver notícias na página das Câmaras Temáticas sobre o centro Antigo (centroantigo.blogspot.com)
    Pô, por mais que eu aprecie a determinação e paixão de Dimitri, não dá pra deixar de levar mais a sério as intervenções propostas pela "menina mimada", do que os tradicionais berros do intelectual marroquino, ainda que isso me classifique como um "desmiolado". Me parece uma forma mais estruturada de pensar e de agir.

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  2. Agradecemos a participação!

    Mas acreditamos que houve um equívoco em sua interpretação, Dimitri explorou neste texto o descaso público e problemas atuais do bairro.
    E citou um exemplo da má gerencia de um dos projetos da família Rique, o Aeroclube. Você poderá conferir mais sobre esta informação nos links abaixo:
    http://tabanotalivre.blogspot.com/2008/02/administradora-do-aeroclube-tem-endereo.html

    http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=882576

    http://jornalistaveramattos.blogspot.com/2008/10/embargo-aeroclube-este-filme-prova-dos.html

    http://www.youtube.com/watch?v=LrAtS0cchUk&NR=1


    Todo o conteúdo veiculado neste blog é devidamente apurado, conta com uma equipe de profissionais de jornalismo para a produção e seleção de material externo. Para tanto não são cabíveis ameaças implícitas e/ou previsões místicas como "pondo em risco aqueles que se arriscam a ficar perto dele". Acreditamos que a sua contribuição é válida, mas agradeceríamos se suas críticas fossem formuladas com maior fundamentação, pois este espaço é dedicado para a construção sólida de possibilidades de melhoria para o Santo Antônio Além do Carmo, assim como a sua real valorização como bairro e denúncias de qualquer ação (ou falta de ação) que venha prejudicar a comunidade.


    Atenciosamente,
    Ariadne Ferraz
    editora

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